Atividade de Prortugês
8ºAno/181
-(1º
trim) – Profª Liliana
Nome:
....................................................................................
Turma:............nº..........
O nariz
Era um dentista respeitadíssimo. Com seus quarenta e poucos anos, uma filha quase na faculdade. Um homem sério, sóbrio, sem opiniões surpreendentes, mas de uma sólida reputação como profissional e cidadão. Um dia, apareceu em casa com um nariz postiço. Passado o susto, a mulher e a filha sorriram com fingida tolerância. Era um daqueles narizes de borracha com óculos de aros pretos, sobrancelhas e bigodes que fazem a pessoa ficar parecida com o Groucho Marx. Mas o nosso dentista não estava imitando o Groucho Marx. Sentou-se à mesa de almoço – sempre almoçava em casa – com a retidão costumeira, quieto e algo distraído. Mas com um nariz postiço.
–
O que é isso? – perguntou a mulher depois da salada, sorrindo menos.
–
Isto o quê?
–
Esse nariz.
–
Ah, vi numa vitrina, entrei e comprei.
–
Logo você, papai…
Depois
do almoço ele foi recostar-se no sofá da sala como fazia todos os dias. A
mulher impacientou-se.
–
Tire esse negócio.
–
Por quê?
–
Brincadeira tem hora.
–
Mas isto não é brincadeira.
Sesteou
com o nariz de borracha para o alto. Depois de meia hora, levantou-se e
dirigiu-se para a porta. A mulher o interpelou:
–
Aonde é que você vai?
–
Como, aonde é que eu vou? Vou voltar para o consultório.
–
Mas com esse nariz?
–
Eu não compreendo você – disse ele, olhando-a com censura através dos aros sem
lentes. – Se fosse uma gravata nova, você não diria nada. Só porque é um nariz…
–
Pense nos vizinhos. Pense nos clientes.
Os
clientes, realmente, não compreenderam o nariz de borracha. Deram risadas
(“Logo o senhor, doutor…”), fizeram perguntas, mas terminaram a consulta
intrigados e saíram do consultório com dúvidas.
–
Ele enlouqueceu?
–
Não sei – respondia a recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos. – Nunca
vi “ele” assim.
Naquela
noite, ele tomou seu chuveiro, como fazia sempre antes de dormir. Depois,
vestiu o pijama e o nariz postiço e foi se deitar.
–
Você vai usar esse nariz na cama? – perguntou a mulher.
Vou.
Aliás, não vou mais tirar este nariz.
–
Mas, por quê?
–
Porque não!
Dormiu
logo. A mulher passou metade da noite olhando para o nariz de borracha. De
madrugada começou a chorar baixinho. Ele enlouquecera. Era isto. Tudo estava
acabado. Uma carreira brilhante, uma reputação, um nome, uma família perfeita,
tudo trocado por um nariz postiço.
–
Papai…
–
Sim, minha filha.
–
Podemos conversar?
–
Claro que podemos.
–
É sobre esse seu nariz…
–
O meu nariz, outra vez? Mas vocês só pensam nisso?
–
Papai, como é que nós não vamos pensar? De uma hora para outra, um homem como
você resolve andar de nariz postiço e não quer que ninguém note?
–
O nariz é meu e vou continuar a usar.
–
Mas por que, papai? Você não se dá conta de que se transformou no palhaço do
prédio? Eu não posso mais encarar os vizinhos, de vergonha. A mamãe não tem
mais vida social.
–
Não tem porque não quer…
–
Como é que ela vai à rua com um homem de nariz postiço?
–
Mas não sou “um homem”. Sou eu. O marido dela. O seu pai. Continuo o mesmo
homem. Um nariz de borracha não faz nenhuma diferença. Se não faz nenhuma
diferença, por que não usar?
–
Mas, mas…
–
Minha filha.
–
Chega! Não quero mais conversar. Você não é mais meu pai!
A
mulher e a filha saíram de casa. Ele perdeu todos os clientes. A recepcionista,
que trabalhava com ele há 15 anos, pediu demissão. Não sabia o que esperar de
um homem que usava nariz postiço. Evitava aproximar-se dele. Mandou o pedido de
demissão pelo correio. Os amigos mais chegados, numa última tentativa de salvar
sua reputação, o convenceram a consultar um psiquiatra.
–
Você vai concordar – disse o psiquiatra depois de concluir que não havia nada
de errado com ele – que seu comportamento é um pouco estranho…
–
Estranho é o comportamento dos outros! – disse ele. – Eu continuo o mesmo.
Noventa e dois por cento do meu corpo continua o que era antes. Não mudei a
maneira de vestir, nem de pensar, nem de me comportar. Continuo sendo um ótimo
dentista, um bom marido, bom pai, contribuinte, sócio do fluminense, tudo como
antes. Mas as pessoas repudiam todo o resto por causa deste nariz. Um simples
nariz de borracha. Quer dizer que eu não sou eu, eu sou o meu nariz?
–
É… – disse o psiquiatra. – Talvez você tenha razão…
O
que é que você acha, leitor? Ele tem razão? Seja como for, não se entregou.
Continua a usar o nariz postiço. Porque agora não é mais uma questão de nariz.
Agora é uma questão de princípios.
Veríssimo, Luís Fernando. O
nariz e outras crônicas. São Paulo: Ática, 1994.p.73-74. Coleção para gostar de
ler.
·
Groucho
Marx: comediante americano, usava bigode e sobrancelhas gorssas
Responda as questões sobre o texto:
1)
O texto discute vários aspectos da vida social
moderna; contudo, um deles se destaca. Das palavras seguintes, qual traduz o
assunto central do texto?
a) a moda
b) o comportamento
c) o casamento
d) beleza
Por quê?
2) A partir de que momento o comportamento bem-humorado da mãe e da filha começa a se modificar?
a) a moda
b) o comportamento
c) o casamento
d) beleza
Por quê?
2) A partir de que momento o comportamento bem-humorado da mãe e da filha começa a se modificar?
3) De acordo com o texto, o
que é mais importante para a sociedade: o que o indivíduo realmente é ou o que
ele parece ser?
4) De modo geral, tal qual ocorreu no caso do dentista, pode-se dizer que a sociedade reserva um único destino a todos aqueles que ousam ser diferentes. Qual é esse destino?
4) De modo geral, tal qual ocorreu no caso do dentista, pode-se dizer que a sociedade reserva um único destino a todos aqueles que ousam ser diferentes. Qual é esse destino?
5) Que argumentos contrários o dentista apresenta diante da opinião do psiquiatra sobre seu comportamento?
6) Assinale a alternativa que melhor se relaciona ao texto:
a) A sociedade não
entende os loucos.
b) O dentista, mesmo
argumentando, coerentemente, encontra sérias barreiras sociais que tentam
impedi-lo de usar o nariz postiço.
c) O dentista, mesmo
argumentando claramente, não encontra adeptos para o uso do nariz.
d) A mulher e a filha do
dentista são muito chatas e incompreensivas.
LEIA O TEXTO E RESPONDA AS QUESTÕES EM SEU CADERNO!
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